Por três

Minha família sempre teve muito conhecimento empírico sobre medicamentos. Para dor de coluna, toma isso; para dor de estômago, aquilo.

Cresci em uma casa em que parte do armário da cozinha era uma mini farmácia. E minha mãe, à primeira reclamação de dor, lá se ia abri-la para resolver logo a situação.

Então adquiri também, com ela, certa habilidade em identificar alguns nomes populares. Quando um médico faz uma prescrição para mim ou para meu filho, na maioria das vezes, já consigo entender ao menos a família daquele remédio e suas funções — o que hoje consegue evitar alguns desconfortos, já que muitas vezes tive problemas com erros médicos em meu histórico.

Pois bem. Acordei e fiquei tentando encontrar, em tudo que já pude conhecer ou ouvir falar, qual medicação poderia me ajudar.

Não encontrei.

Nenhum analgésico, anti-inflamatório, antibiótico, opioide, corticoide ou relaxante muscular pode aliviar minha dor. Nenhum anticonvulsivo ou antidepressivo. Nem mesmo um sedativo ou anestésico.

Talvez, neste caso, seja como as avós dizem; sem farmácia, sem pílulas mágicas nem injeções. Só o tempo.

Mas ele demora a passar quando dói. O relógio congela e as horas continuam iguais.

Então olho para o porta-retratos em cima da estante.

Somos quatro.

Eu, meu marido, meu filho e o Pipoca, por quem agora tudo é dor.

Quando um dos quatro está faltando, o que nos resta é dividir a dor por três.