Não é sobre café

O café perdeu o açúcar. 

A vida, na sua mania de continuar acontecendo mesmo quando alguma coisa dentro da gente para, foi tirando o doce. E agora há um amargor que não se dissolve, por mais que eu mexa a colher.

É curioso como a gente demora a perceber a falta das coisas comuns. Não porque fossem pequenas, mas porque estavam tão presentes que nunca nos parecia possível que um dia não estivessem mais. Ao menos, não assim, de repente.

O café, por exemplo. Sempre esteve ali. Quente, cotidiano. Nunca pensei que pudesse sentir falta do açúcar sem que o açúcar tivesse acabado.

Talvez porque o açúcar nunca tenha sido o problema.

Há ausências que não sabem ficar no lugar de onde partiram. Espalham-se. Entram pela manhã, sentam-se à mesa, acompanham os nossos passos pela casa. Estão no silêncio entre uma coisa e outra, no instante em que olhamos para um canto sem saber exatamente o que esperávamos encontrar ali. E, quando percebemos, já não estamos procurando apenas o que perdemos. Estamos procurando a vida que existia quando ainda tínhamos aquilo. A vida como era.

É assim que o café amarga.

A gente continua fazendo tudo como antes. Pega a xícara, sente o cheiro e, por um instante, quase acredita que nada mudou.

Mas mudou.

Não é o café. Nem a manhã, nem o mundo que insiste em amanhecer todos os dias.

O que falta não está em nenhuma dessas coisas. Mas parece ter se tornado grande o suficiente para caber em todos os lugares.

E talvez saudade seja isso: alguém que não está em lugar algum e, ainda assim, continua faltando em tudo.

O mais difícil para quem fica é atravessar os dias que ainda virão, sabendo que eles continuarão acontecendo. Haverá manhãs, tardes, noites compridas. Haverá motivos para rir, compromissos, coisas que precisarão ser feitas. O tempo não para para que você entenda o que aconteceu.

A gente é que fica para trás, tentando alcançar uma realidade que já chegou sem pedir licença.

Talvez eu devesse colocar mais açúcar. Mas existe uma tristeza particular em tentar corrigir o gosto de alguma coisa quando sabemos que aquilo que falta não pode ser acrescentado nem substituído.

O amor não termina quando a presença termina. Vínculos não desaparecem, apenas deixam de encontrar o corpo. E talvez seja por isso que a saudade procure abrigo nas coisas mais simples: porque são elas que guardam os vestígios de uma vida compartilhada.

Amanhã, vou fazer café outra vez. Eu ainda estarei aqui.

Às vezes, a única coisa possível é continuar, mesmo que o cotidiano pareça ter desaprendido a ser cotidiano.

Há um café sobre a mesa, esfriando devagar. Olho pra ele e penso que, se eu pudesse escolher, não mudaria nada naqueles dias em que ainda havia açúcar. Mesmo sabendo o quanto doeria perdê-lo.

Porque, se agora tenho o amargo do doce que acabou, é porque um dia ele — meu açúcar — existiu.