De quinta pra sexta, sonhei que estava grávida.
Chegava à cozinha do nosso antigo apartamento, passando a mão pela barriga já grande, e dizia ao seu pai:
— Você viu? É um menino.
Ele sorria e respondia:
— Seu pai vai gostar. O único menino da família.
E então o sonho acabava.
No sábado, descobri que seria tia e imaginei que tivesse sido um presságio. Mas, na quinta seguinte, veio a surpresa maior: eu mesma estava grávida. Também seria mãe.
E então vocês chegaram.
Um menino — como no sonho — acompanhado da prima.
É curioso pensar que você já existia dentro de mim antes mesmo de eu saber. Mais curioso ainda é lembrar que, anos depois, mesmo com outras primas nascendo, você continuou sendo o único menino da família.
Intuição, pressentimento, coincidência…
Não sei.
Só sei que, antes mesmo de conhecer o seu rosto, alguma parte de mim já parecia reconhecer você.
Talvez a maternidade comece assim: antes do corpo perceber, antes do exame confirmar, antes do mundo saber.
Talvez ela comece num sonho qualquer, numa frase dita dormindo, numa certeza sem explicação.
Como se o amor chegasse primeiro, silencioso, e só depois ganhasse nome, rosto e voz.
Você já existia.
Antes do susto, antes da descoberta, antes dos planos.
Já existia no sonho, na intuição, no espaço invisível entre o que ainda não aconteceu e o que, de algum jeito, já encontrou caminho para acontecer.